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texto: Éric Elie’l

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Uma vez enquanto eu subia uma encosta alta e íngreme às margens de uma praia, me disseram: – Quando estiver escalando, não olhe para baixo. Acho que só fui entender realmente o significado daquilo alguns anos depois quando meu namoro acabou.

Primeiro a dor de um desfecho que eu não conseguia esquecer, depois um intenso processo de restabelecer quem eu era – relações nos mudam e nem sempre é para melhor – e por último, uma pontadinha no peito que me mostrava o fim. Eu tinha chegado ao estágio final do processo de auto reencontro e quando me lembrava da relação acabada, ao olhar para baixo, não ficava feliz com o desfecho, pois me dava conta que mais uma etapa havia passado e com ela uma sensação de algo pueril, como se o relacionamento tivesse significado pouco.

Encarei aquele processo como a subida de uma encosta íngreme. Não olhe para baixo, ou você vai se assustar. Não olhe para baixo, ou vai ter uma vertigem e cair de cara numa pedra qualquer. Não olhe para baixo, ou você não conseguirá ir adiante à escalada. Não olhe para baixo, ou você vai ceder por tudo que ele representou antes do fim. Não olhe para baixo, ou ele não te deixará partir rumo a auto descoberta. Não olhe para baixo, ou a coisa vai ficar mal resolvida. Não olhe para baixo, você precisa seguir e ele também.

É justamente por entender um pouco sobre isso que fico extremamente pensativo quando vejo alguém querendo estar em uma relação a qualquer custo. Ele é um grosso, mas eu me moldo, ele me entrega um sentimento vazio, mas eu continuo porque quero muito uma companhia, ele vive querendo me enquadrar, mas eu não ligo porque não quero mais ficar sozinho, ele não me inclui completamente em sua vida, mas eu digo para mim mesmo que é porque ainda não está pronto. E por esse caminho segue um intenso processo de depredação de quem se é.

Por isso, antes que a gente queira a qualquer custo entrar em uma relação, precisamos aprender como nos sentimos em relação a nós mesmos e ao mundo, devemos usar-nos muito para posteriormente aprendermos a reconhecer quando alguém está apenas usando o que temos a oferecer.

Precisamos usar-nos como companhia para bater perna por aí, usar nossos olhos para conservar memórias próprias, nossos ouvidos para ouvir histórias de quem amamos, nossa companhia para uma viagem de auto descoberta, precisamos usar-nos para fazer amigos, usar nossas pernas para dançar até que elas doam, nossa voz para gargalhar bem alto e sem motivos, nossa curiosidade para descobrirmos coisas novas, e então, somente depois disso e com nosso modo de usar bem esclarecido para nós mesmos aprenderemos a reconhecer quem nos fará bem e quem apenas quer a nossa companhia para não permanecer sozinho.

Porque quando aprendemos a reconhecer o amor que merecemos paramos de brincar de envolver-nos só para ver no que vai dar, só para se nos divertirmos com o errado enquanto o certo não surge. Quando aprendemos a reconhecer o amor que merecemos só temos disposição para entregar nossas intenções para alguém que também sabe e reconhece o amor que merece.

E então, quando a gente se dá conta estamos preparados para subir a montanha íngreme de uma relação e nem sequer temos a vontade de olhar para baixo, pois chegar ao topo é que se tornou o objetivo e o passado não mais nos assombra.

Desta forma, ainda que o namoro seja um processo transitório, um caminho do meio entre o flerte e o casamento, ele continua sendo o delimitador entre as pessoas que nos deixam lições para uma vida inteira, de todas as outras, pois pessoas para uma vida inteira nos transmitem ensinamentos que contribuem para a nossa formação emocional e quando encontramos esse tipo de pessoa, devemos amá-la e aceitar a lição para que mesmo que um dia o namoro acabe, possamos colocar em prática tudo o que aprendemos nas relações que virão.

Por isso, quando estiver numa escalada íngreme, quer seja numa encosta, montanha, relação, término ou processo de autodescoberta, siga em frente e não olhe para baixo. O que te interessa está no topo, é lá que você encontrará alguém que pare com os olhos em você, ainda que no caminho muitos tenham te olhado depressa demais. É lá no final da montanha da autodescoberta que aprendemos a reconhecer o amor que merecemos e da mesma forma é lá que ficamos prontos para entregar ao outro o amor que ele merece.