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texto: Éric Elie’l

foto: pexels.com

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Estou lendo o comentado livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury que apesar de escrito e lançado em 1953 é assustadoramente atual. A obra é uma ficção científica atemporal e por isso encaixa-se perfeitamente no cenário que vivemos hoje.

Basicamente, a trama explora um cenário tecnológico avançado onde as paredes das residências se tornaram imensas telas que projetam programas de entretenimento e noticiários com informações filtradas a ponto de causar um frenesi de felicidade constante na população, ao passo que, ler e refletir se tornou proibido e os bombeiros agora sem função (uma vez que os acessórios tecnológicos não permitem mais focos de incêndio) passaram a assumir o ofício de atear fogo em todos os livros encontrados, numa sociedade onde portar livros ou incitar a reflexão tornou-se crime.

Agora, veja bem, não é mais ou menos esse cenário que estamos beirando? Nós, cada vez mais andamos cheios de combustível, estamos empanzinados, literalmente entupidos com tantas informações e ao mesmo tempo nos sentimos fantasticamente brilhantes com todo esse acesso. Assim, muitos de nós criamos um senso de reflexão e passamos a achar que estamos pensando e criando um movimento quando na verdade não saímos do lugar, todas as informações nos foram trazidas para que imaginássemos que estamos refletindo e é essa “falsa” sensação de que sabemos de todas as coisas que nos deixam felizes.

Na verdade vemos apenas o que queremos, permitimos relações duradouras apenas com pontos de vista congruentes com os nossos, lemos o que nos é confortável e cômodo, mas em pouquíssimos casos nos arriscamos a andar por terrenos movediços, por questões que desconhecemos, com pessoas que pensam diferente da gente ou até mesmo assistindo a documentários e lendo matérias que vão na contra-mão do que acreditamos. Quando adotamos essa prática e fechamos nossas crenças e relações em uma bolha será que é porque chegamos ao limite máximo de uma sábia reflexão? Ou será que é porque era exatamente isso que queriam da gente?

Refletir de verdade é um pouco frustrante e melancólico então para quê mexermos no nosso conforto? Desta forma, assim como em Fahrenheit 451 as notícias viraram produtos e elas são vendidas pra você do jeitinho que você quer. Da mesma forma se o seu colega é de uma doutrinação diferente da sua, ele por sua vez estará consumindo outra escala de notícias especialmente feitas para ele.

Por isso é muito interessante essa coisa de trafegar por vários salões, de conhecer todo tipo de gente, de praticar a empatia e assumir outro ponto de vista sobre as experiências da vida, de ler o que cutuca sua ferida interna, de absorver um pouquinho do diferente que a sociedade proporciona. Desta forma a gente para de ser a vaquinha do presépio da tia Judite que apenas enfeita o calmo cenário natalino e passamos a ser a galinha D’angola da vizinha Alaíde, que cansada de ciscar no mesmo quintal e achar que todo mundo era preto de bolinhas brancas resolveu se empoleirar no muro e ver a diversidade além dele.

Enquanto estamos divididos e cheios da certeza de estarmos certos do lado que estamos é mais fácil causar uma dispersão, porém quando todos assumimos que precisamos aprender mais sobre as coisas e principalmente uns com os outros passamos juntos a um envolvimento por um ideal maior, que vai muito além do que consumir o que produziram para a gente.

No final não existe essa coisa de caminho feliz ou portinha mágica da razão absoluta, se cada situação tem lados, visões e abordagens diferentes dos fatos nós continuamos tendo apenas um, o lado humano.